AFaGHo
Apoio a Familiares e Grupos de Homossexuais

by Dra. Ana Maria Ribeiro

 
O AFaGHo foi formado em Campinas, em 2002, como um suporte para pais e mães que são pegos de surpresa pela orientação sexual diversa do filho ou da filha. Através dessa coluna, a Dra. Ana Maria Ribeiro  - ela própria mãe de um e-jovem - irá responder dúvidas sobre como esses pais podem lidar com seus filhos e vice-versa - como a galerinha e-jovem pode lidar com seus pais, para uma convivência sem obstáculos. O AFaGHo também promove reuniões de pais e familiares em Campinas e presta assessoria terapêutica individual e a grupos de homossexuais, como o Grupo E-jovem. Dúvidas, comentários e sugestões devem ser enviadas para afagho@e-jovem.com
 
Re – Ligar

Tenho acompanhado a lista de e-mails do E-jovem e tenho percebido que muitos estão começando a retirar a mentira de suas vidas.  O que acho ótimo!  Ao mesmo tempo percebe-se um desejo de se juntar, de se encontrar.  Cada vez mais o povo se identifica, diz de que cidade está teclando e pede encontros e marcam
encontros. Embora muitas vezes não apareçam!  De qualquer forma as pessoas estão pedindo reuniões e parecem querer estar em união, juntos.

Para quê?

Para se olhar, para conversar, para se identificar.  Para não se sentir isolado, estranho, diferente. Para se sentir em harmonia.  Para se ligar uns aos outros ou para se re-ligar?

A palavra religião vem do latin  “religare” .  Ligar de novo.

Foi o que motivou os primeiros encontros (religiosos?), a necessidade em se sentir em harmonia com alguém, com alguma força.

O pessoal do E-jovem tem sua diferença em relação as outras pessoas fundamentada no amor. No amar diferente.  E, estranhamente são rejeitados por todas as religiões institucionalizadas.

Mas a necessidade de reunião é mais forte e a necessidade de identificação também... por isso tantas discussões sobre religiões e textos bíblicos. 

Uma das histórias mais interessantes sobre mitos e dogmas foi-me contada por Gloria Karpinski: 

“Quando ele começou, era um verdadeiro guerreiro que ansiava pela verdade.

- Devo partir em busca de algo – disse.

Os mais velhos, satisfeitos com o fato de que essa paixão juvenil era controlada, de sua ambição humana era moderada, entregaram-lhe o mapa secreto. Ele viajou durante muitas estações antes de chegar a Terra Alta. Dia após dia sentava-se na relva, no topo da montanha, com a vida e a respiração suspensas. Havia apenas o silêncio. Ele não via nada e não ouvia nada.

Então, na alvorada do sétimo dia, quando a Lua e o Sol se puseram em equilíbrio, sua busca alcançou algum resultado. Do seio da Terra, saiu uma grande ave branca, com as asas banhadas pela luz dourada e aveludada do sol nascente. Ela voou suavemente até uma árvore próxima e cantou uma canção tão bonita que o guerreiro chorou ao ouvi-la, levantando as mãos em sinal de gratidão e súplica.

Sem hesitar, a ave voou até as palmas de suas mãos, estendidas para o alto.

 Durante muito tempo, eles ficaram juntos em harmoniosa união. Quando o  mensageiro alado contou ao jovem e ansioso guerreiro muitas coisas extraordinárias, o espírito dele se libertou de suas amarras.

Então ele se lembrou de seu lar terreno e da tribo que havia deixado. 'Eu preciso voltar e contar aos outros', pensou, e preparou-se para libertar a ave.  Mas um pensamento o importunava. 'E se eles não acreditarem? Vou prender a ave e terão de acreditar.'

A grande ave branca não ofereceu nenhuma resistência quando a grande palma da mão do guerreiro se fechou com firmeza. Cheio de regozijo e segurando a fonte de sua revelação, o guerreiro desceu correndo a colina na direção de sua casa, sem perceber o que havia acontecido a ave.

Reuniu o povo em torno de si e contou-lhe as coisas maravilhosas que aprendera com a ave. Então com orgulho, apresentou o testemunho falado de sua busca.  Mas os olhos da ave estavam fixos e vazios. As suaves asas brancas, que antes se arcavam al alçar vôo, agora estavam planas e sem vida.

As pessoas ficaram intrigadas. Mas elas próprias nunca tinham optado pela busca. Certamente o guerreiro devia saber das coisas. Sob suas ordens, construíram um templo em homenagem à ave e contaram a história da busca do guerreiro muitas e muitas vezes. Muitos jovens foram inspirados a optar pela busca.

Mas isso foi há muito tempo. O guerreiro não é mais jovem e ambicioso. Ele fica sentado sozinho numa sala poeirenta e sem ar. Dizem que fez para si mesmo uma capa de penas brancas e que, em determinados dias, senta-se diante da ave empalhada e fica esperando que ela fale com ele.”

Esta poderia ser a história do começo e da institucionalização de todas as religiões.  Quando a gente constrói templos para adorar aves empalhadas, esquece-se do vento no rosto sobre as montanhas e de todas as verdades que se buscou.

Também poderia ser a história de todo o grupo que se forma.  Após sua organização, sua estruturação, esquecemos um pouco das razões que buscávamos ao querer ficar juntos em união e começamos as disputas, as maledicências, as politicagens num sentido pejorativo.

Será tudo em conseqüência do veneno do poder? Não sei.

Só gostaria de lembrar aos E-jovens que buscam e lutam pelo direito de amar não se esquecerem do amor...

Dra. Ana Maria Ribeiro
é Antropóloga Clínica e mãe de gay.



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