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meninos & gays
Nesta semana:

* Homofobia se aprende na escola


 
Homofobia se aprende na escola

Felipe Luckmann
 

No colégio aprendemos coisas úteis, deixamos de aprender outras mais úteis ainda, ou então, aprendemos o que nunca deveria ser ensinado pra ninguém. O último caso é o da homofobia. Ela, infelizmente, é doutrinada em nossas instituições de ensino, que servem assim para perpetuar preconceitos já enraizados na nossa sociedade. É lamentável, já que o papel do colégio é (ou deveria ser) fazer o aluno pensar e principalmente repensar o mundo. Mas não é isso o que acontece. Ele é instigado a repetir padrões de comportamento e conduta já consagrados.

Quem é o responsável por esse quadro? Um deles é o professor, sem dúvida. Afinal, ele representa a figura de autoridade e de “sabedoria” dentro da sala de aula.

 
Vou citar um exemplo verídico, e que aconteceu comigo mesmo. No último ano do ensino médio, tive a infelicidade de ter como professora de biologia uma profissional extremamente preconceituosa e reacionária. Dizia incontáveis absurdos contra os homossexuais. E seu falar era convicto, com uma paixão. O pior, é que ela adorava abordar a temática sexualidade nas suas aulas, apesar de não ter formação para tal e entender nada do assunto.
 
Certa vez, ela explicava o ciclo menstrual feminino. Como alguns colegas (meninos) meus conversavam e não prestavam atenção no que ela falava, a dita cuja interrompeu a aula e proferiu a pérola: “Vocês aí, prestem atenção. Eu quero que vocês entendam a mulher de vocês quando casarem. Porque eu rezo todos os dias para que vocês só tenham relacionamentos com mulheres. Infelizmente, nem sempre isso acontece...”. Preciso dizer mais uma coisa? Uóóóó!
 
E tem mais. Em outra ocasião, ela discorria sobre vaginas, não lembro o motivo. Comentou o fato da boa visualização do órgão que certas revistas adultas eróticas propiciam. Ela se referiu a tais revistas como aquelas que “99,8 % dos meninos normais compram”. Absurdo total! Por dois motivos: primeiro, homossexualidade é uma orientação sexual como qualquer outra, não há nada de anormal em ser gay; segundo, os gays não são 0,2 % como acha a querida professora, mas sim, pelo menos 10 %.
 
E não acabou. Como já disse, sexo era um dos assuntos prediletos dela. Não perdia oportunidade, então, pra falar sobre sexo anal e oral. Falar mal. E jogava nos alunos todas as idéias mais medievais possíveis. “Eu preciso alertá-los”, dizia. Sugeriu que sexo anal causaria hemorróidas (?!), incontinência fecal (?!!!), câncer... ou seja, quem desse o cu estava condenado à morte.
 
E o preconceito e as idéias errôneas iam sendo perpetuadas dentro da sala de aula... Importante mencionar o modo como tais idéias eram ditas pela referida profissional. Falava com uma convicção, com um jeito de bem entendida no assunto, com uma eloqüência, que dava a tudo um teor de verdade incontestável. E seu discurso fascistóide era convincente. Na sua luta para catequizar os alunos, ela não esquecia nem de legitimar seu discurso. Prática caracterizadamente fascista: legitimar uma mentira. Para tanto, dizia outra de suas pérolas: “Não, eu não sou preconceituosa. Quero mais que as pessoas sejam felizes”. Hahahahaha! E se isentava de qualquer culpa... Tudo o que dizia, assim, não era preconceito, mas verdades... Só não mencionava que eram verdades válidas somente na Idade Média. E felizmente estamos no século XXI. Quando ela falava aquelas coisas, não estava sendo preconceituosa? E pode algum gay ser feliz, sofrendo com a discriminação da sociedade, que ela mesma contribui pra aumentar, educando aqueles adolescentes para a homofobia?
 
E essa é apenas uma de tantas professoras e professores que se portam de maneira errônea. O correto seria a escola educar desde cedo para a diversidade. Para tanto, é necessária uma reformulação total do sistema de ensino, em todos os níveis. Para começar, no ensino superior. A maioria dos professores está despreparada para tratar do assunto sexualidade. Então, as licenciaturas devem abordar o tema profundamente e orientar o comportamento dos professores diante da questão em sala de aula. Assim, se formariam professores que perpetuariam uma ideologia mais tolerante em relação à homossexualidade. Seus alunos, futuros professores, estariam mais preparados para lidar com o assunto na faculdade e, conseqüentemente, na posterior prática profissional. Gradativamente, o nosso sistema de ensino iria mudando e a mente de nossas crianças e adolescentes também. Esse é um passo importante que falta. Pois não só a homofobia se aprende na escola, mas o respeito pelo diferente também.


Felipe Luckmann
é membro do E-POA ~ Grupo E-jovem de Adolescentes Gays, Lésbicas e Aliados em Porto Alegre: http://e-poa.zip.net

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