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Laerte 
 

Veja trechos da entrevista do Laerte, publicada na revista Caros Amigos (no. 84), em que ele assume ser bissexual:

Entrevistadores: Marina Amaral, Natalia Viana, Flávia Castanheira, Sofia Amaral, Guto Lacaz, Mylton Severiano, Antonio Martinelli Jr., André Bertoluci, Rodolfo Torres, Sérgio de Souza.

Marina Amaral - Então, Laerte, o nosso começo de praxe: como foi a sua infância, o início da sua vida até se tornar artista?
Não me considero um artista, essa é uma diferença interessante, faço histórias em quadrinhos, faço ficção, mas a idéia de que esteja fazendo arte ou tenha uma profissão é meio nebulosa pra mim, tanto quanto essa fronteira de infância e adolescência e idade madura, se é que estou maduro, é confusa, não é uma coisa muito clara. Eu nasci em São Paulo e a minha memória mais antiga é morar na rua Pamplona, morávamos num sobrado e depois, quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, minha família se mudou para o Alto de Pinheiros. Era uma espécie de subúrbio à maneira americana, todas as casas com grandes gramados e cerquinha baixa na frente, meio que seguindo um padrão imobiliário...

Sérgio de Souza - Família rica, então?
Meu pai é professor universitário. Se aposentou. Professor de geologia, petrologista, e virou nome de pedra, um mineral descoberto há poucos meses foi batizado, em homenagem ao meu pai, de coutinhoita.

Mylton Severiano - Como é o nome completo do seu pai?
José Moacir Viana Coutinho.

Marina Amaral - Você tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho e duas irmãs mais novas.

Sérgio de Souza - Se um garoto pensar “quero ser desenhista na vida”, o que tem no Brasil pra ele?
É uma boa pergunta. Não tem nada. No exterior tem, em alguns países, desenhar quadrinhos, desenhar humor são atividades tão consagradas e já cristalizadas que a elas correspondem cursos e existem centros onde funcionam escolas em que você pode ir e sair mais ou menos bem formado, por exemplo, em Angoulême, na França. Rolou uma idéia de construir isso em Piracicaba, a partir do Salão e do Museu de Humor, fazer uma espécie de escola lá. Mas é um projeto bem complicado.

Mylton Severiano - Como é o seu dia, o processo de criação, você tem disciplina? 
Uma parte tem que ser disciplinada, porque estou trabalhando com jornal diário.

Rodolfo Torres - É só Folha de S. Paulo?
Não, a mesma tira que sai na Folha eu mando pra PacaTatu, uma agência lá no Rio de Janeiro que distribui pra mais dez jornais no Brasil, mais o Diário de Notícias, em Lisboa.

Flávia Castanheira - Noto que você não trabalha muito em cima de acontecimentos, trabalha mais com o comportamento humano... 
A última vez que tentei fazer charge foi num jornal de Manaus, chamado Jornal do Norte. Fiz charge durante um ano e tanto. Mas não é uma coisa confortável, não fico à vontade. Primeiro, desenhar caricatura, eu não pego direito a coisa. Segundo, é a idéia de emitir opinião política, sempre paro no meio e falo: será que é isso mesmo, será que eu tô falando bobagem?

Flávia Castanheira - Você tem medo de se arrepender no dia seguinte? 
Fiquei dez anos fazendo o que se chamava de charge erradamente, na Gazeta Mercantil, sobre assuntos que até hoje não domino, não manjo. Não sei o que são debêntures até hoje... E o assunto do jornal era esse. Daí entrava Geisel, Shigeaki Ueki, Simonsen, e eu ali desenhando absolutamente sem referência, completamente nas nuvens.

Mylton Severiano - Você fez charge na página 2 da Folha? 
Não, nunca fiz. O Luis Gê chegou a fazer. O Spacca fez. Depois veio o Angeli, o Glauco...

Flávia Castanheira - E essa turminha, quando vocês se conheceram? 
O Angeli eu conheci fazendo fanzine ainda. Ele era da turma da Casa Verde, com o Alci, o Jal. Nós éramos os boyzinhos de Pinheiros. Ainda na época da faculdade. Ele já estava trabalhando havia uns dois, três anos quando eu comecei. Depois disso, a gente conheceu o Glauco, num Salão de Piracicaba, uns anos depois, e nos apaixonamos pelo Glauco. Porque ele é uma figura encantadora e trazia um tipo de humor que a gente achou sensacional. Para sair da fase dos anos de chumbo, nada como o Glauco. Ele tinha um cartum que ficou famoso, que era um sujeito preso com correntes, o clássico cara preso com correntes na parede, e o clássico carrasco passando em frente e o cara cutucando a bunda do carrasco e dizendo: “Eh, bundão!” Era uma novidade na época. Era um tempo novo mesmo, tinha acabado a fase do Médici, estávamos no Geisel, os tempos eram outros e de certa forma se continuava produzindo muito o cartum de chumbo mesmo, aquela coisa pesada.

Marina Amaral - O que você lê?
Romances, histórias, ficção. De uns tempos pra cá, tenho lido muito sobre religião, tenho me interessado pelo tema.

Sérgio de Souza - Por que será?
Não sei. Acho que é um momento mesmo. Coincidiu também com o ponto em que comecei a trabalhar o personagem Deus. Não me tornei religioso, não aderi a nenhuma religião, continuo naquele agnosticismo que sempre tive. Mas vejo religião com outros olhos, e me interesso, e curto, e procuro ter compaixão, quer dizer, você sentir a mesma coisa que as pessoas que têm religião sentem, o que as motiva. Não de uma forma sociológica e tal, tal, tal, mas tentar ver. Por exemplo, fui no daime (santo-daime) do Glauco nesse tipo de busca também. E foi bom porque recuperei o Glauco, foi um momento de entender o Glauco...

Mylton Severiano - Você tomou a aiauasca?
Tomei.

Flávia Castanheira - Você gosta de futebol? Pra que time você torce?
Ah, não torço mais. Torcia pro São Paulo quando era criança, depois passei a torcer pelo Corinthians quando jovem...

Flávia Castanheira - Como é que alguém troca de time?
Namorada... Ela era corintiana. Depois parei de torcer por causa do Serginho Chulapa. Ele jogava no São Paulo, e era muito cruel com a torcida, a torcida odiava ele, queria comer o fígado dele. Ele fazia as provocações mais absurdas. Aí,o Corinthians contrata ele, no dia seguinte estava a torcida inteira: “Serginho, nosso rei!” E eu pensei: “Que coisa falsa! Não é possível!” Bom, aí isso também se somou à percepção de que futebol é isso mesmo, as pessoas compram esses jogadores que são artistas e estão ali atrás do salário, né? Não existe mais essa coisa de time, camisa e tal... Aí me desmotivei mesmo. E achei que aquela coisa da associação do Corinthians com a democracia e a luta pelo povo também era forçar um pouco a barra. Pensei: “Porra, por que só no Corinthians? Não tem caras legais na torcida do São Paulo, do Palmeiras e mesmo da Portuguesa? Claro que tem!”

Sérgio de Souza - Pra encerrar, você não tem nenhum “crime” pra confessar? Um furo jornalístico?
Já fui preso, pelado, na USP. É a coisa mais grave que já fiz.

A certa altura, ao ser questionado sobre sua sexualidade, Laerte responde "não sou completamente heterossexual". Depois de ler a entrevista, ele acha que não se abriu totalmente com os entrevistadores. Resolve então fazer esses quadrinhos auto-biográficos - que acabam sendo o MELHOR! Confira:

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