PSI

por Fernando A. Pocahy
Quando pinta a vontade de sumir do mapa

Vez em quando não bate aquela vontade de 
desaparecer, de sumir do mapa e cansado de tudo e de todos uma sensação de que só resta mesmo é  partir pra lugar algum? E o que fazer quando em casa todo mundo te enche o saco, fica buzinando nos ouvidos, atordoando os pensamentos? 

Socorro!!! Mas por vezes mais uó é a barra de gostar de alguém e não poder fazer o que se tem vontade! Aí, claro que pinta a vontade de morrer! De se apagar. Um peso, duas medidas nisto. Prefiro sempre acreditar no Quintana, que para  quem nunca quis morrer é porque não sabe o que é viver... 

Então, hoje o papo é sobre isto: a vontade de não ter 
vontade de mais nada. E entre a vontade e um ato as fronteiras podem não estar muito definidas... O suicídio entre jovens é considerado hoje um sério problema de saúde pública, pelo menos em alguns países. O babado é forte, gurizada! Uma pesquisa norte-americana (vamos usar esta como referência inicial, apenas) indicou que o número de e-jovens que chegam às vias de fato é duas vezes maior que entre os outros na 
mesma faixa etária (pesquisa publicada pelo Jornal Americano de Saúde Pública – veja a notícia em www.advocate.com). 

Lançando nosso olhar de e-jovens atilados sobre esta 
estatística fica óbvio a sacação de quais podem ser os agentes produtores destes índices. É sabido que a opressão moral e a zombaria entorno da diversidade cultural e sexual beiram ao ridículo e produzem muito sofrimento, violência e morte! E, novamente: por aí, podemos entender o que quer dizer esta “dinâmica” da vontade de nada. O nada, aqui, é o nada mais daquilo tudo - e o que está colocado é uma vontade muito
grande de escapar deste cenário de opressão e impotência. Mas talvez para o que a gente não dê muita bola é para as formas como se lida com estas barras! 

Para alguns, a angústia é tamanha que esta vontade de nada acaba produzindo esforços para dar cabo à vida, mesmo. E aí, às vezes nos machucamos em acidentes domésticos, noutras nos afogamos em bebedeiras ou, ainda, alucinados pela vontade de escapar de tudo, testamos todos os limites de nosso 
corpo em overdoses de bombas das mais diversas espécies – sejam elas químicas ou humanas (saca aquele namoro passional que acaba com a gente?), na busca por um êxtase acalmador. E nesta ânsia por livrar-se da dor, às vezes ficamos até panicados: o corpo parece que não vai suportar tanta intensidade, tanta força. O coração parece querer saltar pela 
boca, a gente fica (con)gelado, fica louc@, transbordando pelos poros suor frio feito lágrimas. Medo de morrer, que aos poucos vai nos minguando até matar qualquer vontadezinha. E os acidentes de trânsito podem aparecer também... Mas vamos 
parar por aqui. 

Tô apontando estas nuances da produção de sofrimento que é para lermos de um outro jeito estas estatísticas que rolam por aí e que na realidade podem ser bem mais alarmantes. Enfim, lanço idéias que é pra gente se entender melhor e combinar que ninguém é de aço e isto o que acontece tem a ver com a sociedade em que vivemos/produzimos, exigindo algo para além de nossas competências pessoais em lidar com as mazelas existenciais. 

Ou seja, cabe incluir neste papo de índices de saúde pública a figura do Estado (que tem garantido muito pouco para nós brasileiros e não tem nos 
permitido sonhar com o futuro, com uma perspectiva de vida – que inclua toda a nossa diversidade sexual e cultural) que é responsável por este cenário. Aliás, cenário ainda não muito definido - porque ainda não foram pesquisados, por não se debruçaram com implicação... por que é ainda tabu morrer de desejo, de não poder ser ou fazer o que se tem vontade.

Não tenham dúvidas de que, por exemplo, os números 
da aids, entre outras formas de adoecimento, estão 
correlacionados diretamente à vulnerabildiade social de muitos cidadãos (será mesmo que somos cidadãos?) brasileiros. Pobres, negros, mulheres, homossexuais (uso provisoriamente esta expressão, ok?), cada um em sua especificidade de gênero, condição sócio-econômica, etc., o estão nestas estatísticas não por acaso. 

Para ser objetivo e mais direcionado: a gente sabe que os homens que fazem sexo com
homens, apesar de toda espécie de informação, ainda 
produzem comportamentos de risco. Por que? Entre tantas hipóteses podemos pensar sobre a não existência de campanhas honestas, de impacto, sérias, comprometidas mesmo com a saúde e os direitos humanos, que tornam um tanto difícil que pessoas sustentem a diversidade sexual,  sintam-se em condições de negociar o sexo seguro, e mesmo, de envolver-se sexualmente por prazer e com direito de ter prazer. Afinal, sentir-se culpado pelo que sente ou faz, pode tornar alguém muito mais vulnerável ao contágio do hiv e a outras formas de adoecimento. 

Mas aos poucos a gente vai transformando a vida e 
deixando ela do jeito que a gente quer, sempre com os outros. Somos todos co-responsáveis pelo mundo em que vivemos. 

Portanto, amiguinho: se te encherem o saco, dá uma volta... faz um dobra no lance. E veja as coisas sempre para além do umbiguinho. Porque é isto que querem da gente, que fixemos o olhar em nossos umbigos, encerrados em nós mesmos. Assim, nos tornamos impedidos de olhar a vida e os acontecimentos de uma forma mais ampliada. Somos cidadãos, não consumidores. Somos humanos, portadores de direitos e desejos humanos. Para mim, o limite do respeito está no consentimento mútuo e o da vida, no viver. E a vida é a vida.

Um abração!!
Fernando A Pocahy
Psicólogo
CRP 07/10522

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