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PSI
 
O mundo amoroso infantil
Crianças percebem qualquer tipo de amor sem culpa
(esse texto me foi repassado e não foi citada a fonte. O autor parece ser um psicólogo gay - Deco)

Nestas férias fui para o Rio e fiquei hospedado na casa de uma amiga de adolescência, Zelda. Ela está casada e tem 2 filhos que chamarei aqui de Beto, 8, e Dudu, 9. Claro que houve cenas muito engraçadas envolvendo as crianças. Um dia Zelda ouviu Dudu conversando com João um amigo do prédio:

João: "Vocês não foram a praia hoje?"
Dudu :"Fomos na praia dos gays."
"Aonde? Por que?"
"É que meu tio Julio é gay e ele vai pra praia dos gays, pra encontrar os amigos gays dele."

Nós morriamos de rir com as histórias: "Imagina quando o menino chegar na casa dele e contar pra mãe?"

"Nossa! Nunca mais a mãe dele deixa ele ir lá em casa", disseram rindo. Fabio e Zelda são um casal bem desencanado e fizeram questão de nos levar a uma boate gay. Fabio dançou e se divertiu. Ele também foi alvo de piadas pois havia um cara que o paquerou no início, antes de perceber que ele estava com minha amiga.

Um dia saímos para jantar os 4 mais um terceiro casal de amigos da época do segundo grau. Foi então que surgiu uma conversa interessante. Paula nossa outra amiga confessou não ser tão liberal como Zelda. E passa a narrar, fazendo um mea culpa, um diálogo com seu filho de 6 anos:

"Mãe o que é o casamento?"
"Casamento é quando duas pessoas se amam, decidem viver juntas e fazer tudo junto na vida."
"Mãe quando eu crescer quero casar com o Marco."
"Com o Marco não pode filho."
"Porque não? Eu amo o Marco mãe!" (Marco é o melhor amigo dele na escola)
"Casamento é entre um homem e uma mulher."
"Então eu posso casar com Isabela?"
"Isabela não pode filho ela é sua irmã."

A conversa progrediu até que Paula conseguisse normatizar o desejo de Pedro. Paula ficou envergonhada pois achava sua atitude repressora mas reconhecia que a sua surpresa e angústia foram maiores do que sua consciência libertária.

Zelda ficou revoltada. Isabela, defensivamente, argumenta que é fácil na teoria criticar sua atitude mas duvida que Zelda tivesse mais jogo de cintura numa situação destas.

Zelda conta então uma conversa com seu filho:
"Mãe o Marcelo pode passar o fim de semana com a gente? O pai dele deixou."
"Claro meu filho. Vocês estão bem amigos, não é?"
"Mãe você já viu o olho dele?! É lindo. É verde no meio e tem uma roda em volta meio amarela."
"É mesmo ele tem um olho lindo."
"E o sorriso dele não é lindo mãe?"
"É meu filho, ele é um menino muito bonito e percebo que você gosta muito dele!"

Todos ficam surpresos a mesa com a atitude de Zelda. Fabio confessa que não gostaria de ter um filho gay mas admite que faria tudo para aceitar a idéia e apoiar seu filho.

De fato na idade dos dois meninos não se tratam de manifestações sexuais, pelo menos como nós adultos compreendemos nossa sexualidade. Segundo Ferenczi, nós adultos tendemos a compreender a linguagem libidinal das crianças a partir de nossa linguagem sexual adulta. Linguagem sexual adulta que muitas vezes é estruturada a partir da repressão, culpa e vergonha. Ou seja, nossa forma de compreender o mundo amoroso infantil pode ser feita a partir de um olhar neurótico sobre o mundo.

Na idade dos filhos de Zelda amor é amor. Eles gostam dos amigos, então isso é amor e portanto não há problema em manifestá-lo. O amor infantil está muito mais próximo da ternura, do sonho, do brincar do que o amor do adulto reprimido, onde estas tendências encontram-se dissociadas. São os adultos que vem problema no fato de um garoto achar seu amigo bonito, querer beijá-lo e abraçá-lo. O pretexto para repressão é a normatização, supondo que a adequação à norma social impediria o sofrimento. O que faz um homem que ama outro homem sofrer não é o amor em si, mas o sentimento de culpa despertado pelo
olhar repressivo e preconceituoso da sociedade.

Fica claro que Pedro, filho de Paula, sente o mesmo amor por seu amigo e por sua irmã, não existem ainda objetos incestuosos ou proibidos. Assim ele não sente culpa por este amor.

A atitude de Zelda pode determinar a orientação sexual de seu filho? Estudos mostram que não. Até porque se fosse assim nenhuma mãe homofóbica teria filhos gays, o que sabemos que não é verdade. Prefiro que vocês mesmo testemunhem como Zelda pensa. Transcrevo as palavras de um email seu em resposta a uma mensagem minha onde agradecia a
estadia e contava que estava com saudades dela, de Fabio e dos meninos:

"Que bom que você sente amor por eles! Fico muito feliz! Acho importante eles verem que somos tão amigos e que, apesar de o mundo dizer o contrário, vc é uma referência homossexual positiva pra eles e eu sei que isso vai SEMPRE fazer diferença quando eles encontrarem uma pessoa gay. Antes de julgá-la eles se lembrarão do 'tio júlio' e terão menos chance de ser preconceituosos. Amém! Afinal, eles serão os jovens de daqui a 5 ou 6 anos! Já era hora de alguém começar a 'abrir mentes'."

Chorei muito ao ler isto, Zelda é a mãe que muitos pacientes meus gostariam de ter tido. Claro que eu acho que Fabio tem um papel importante nesta dinâmica familiar, ele ama sua esposa e sei que eles tem uma vida sexual ativa. Acho que isso é decisivo para que o casal não seja repressor para com os filhos, quem vive bem sua sexualidade não tem porque reprimir a dos outros. Fabio brinca e rola no chão com os filhos, os beija e os abraça muito. Fico impressionado como eles declaram amar uns aos outros o tempo todo com beijos e
abraços. Zelda recebe beijinhos na boca dos filhos que dizem "Eu te amo mãe!".

Este carinho eles estendem a todos, assim o amor de seus filhos pelos amigos é amor do mais puro e genuíno.

No dia que eu vim para Sampa fui presenteado com uma bala:

"Esta bala é a melhor bala do mundo, minha tia trouxe pra nós da Itália. E nós estamos dando uma pra você".

Então ele abre o pacote valioso e me entrega uma balinha como quem dá um diamante.

Nunca consegui entender como alguém reprime o amor. Quando a narrativa de alguns pacientes os faz rememorar cenas que os levariam a conclusão que seus pais falharam como objetos de amor e cuidado, alguns se defendem argumentando que não existem pais com este grau de discernimento.

Mas eles existem e são pais como Zelda e Fabio que transformam o mundo.



P.S.: O jornalista João Marinho complementou o texto acima com o seguinte relato:

"E tem mais: as crianças sacam muitas coisas que os adultos pensam que não. A Rafaela, sobrinha do meu namorado, outro dia estava com o pai, com um livro de figuras: "Olha, pai, essa sou eu e meu namorado; esse é você e seu namorado". O pai, meu cunhado, adiantou-se em corrigir: "Não, filhinha. Papai tem na-mo-ra-dA". Eu apenas ri da situação.

Eu e meu namorado não nos beijamos e nem nada na frente da Rafa, devido, entre outras coisas, a convenções da família dele. Mesmo assim, ela, que até já brincou conosco junto na cama, percebe que o "tio" João e o "tio" Wagner são casados - tenho certeza.

Por fim, vale mencionar uma experiência de uma amiga minha da PUC que até já contei aqui, mas que acho muito legal. Essa amiga, claro, sabe que sou gay. Ela encontrou sua priminha, de 5 anos, brincando com uma amiga e duas Barbies. Segue o diálogo:

"- Nossa, que bunitinho. Mas cadê os Kens? Elas não têm namorado...?"
"- Não. É que elas são lésbicas!"

A cara com que minha amiga diz que ficou é digna de nota.

Bjs!
João Marinho"



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