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Grupo E-jovem em ação!
Assassinatos sociais

Deco Ribeiro

"Sou só mais alguém, querendo encontrar
A minha própria estrada pra trilhar.
Apenas alguém, querendo encontrar
A minha própria forma de amar.
E não é fácil...
Não é fácil viver assim."
~ Junior Lima, Super herói

Antes de continuar este texto, recomendo que você leia a reportagem desse mês, Genocídio Gay, na seção News, que dá detalhes sobre o suicídio de jovens e adolescentes gays.

Três adolescentes gays se matam por dia. Três E-jovens. Um a cada 8 horas. Depois disso, o que resta dizer? Imagine um pai acordando às 7 da manhã, pra ir ao trabalho, e encontrar seu filho morto, enforcado no quarto. Ou um rapaz chegando do inglês às 15 horas e encontrando o corpo da irmã, no banheiro. Ou o porteiro do prédio entretido com o finalzinho do Big Brother, às 23 horas, que ouve o baque surdo de alguém que se joga pela janela. E isso acontecendo no mesmo dia, TODOS os dias, sete dias por semana, entra ano, sai ano... Enquanto você passou o fim-de-semana na praia, 6 E-jovens se mataram. Nos quatro dias de vestibular da Unicamp, mais 12 cometeram suicídio - e um foi assassinado. Nos cinco dias de Carnaval, outros 16 morreram. Provavelmente 17. Sozinhos. 

Simplesmente por serem gays. E eu enfatizo o termo 'gay' porque é o que acontece, na grande maioria dos casos: 6 garotos se matam pra cada garota. Ou seja, dos 1056 E-jovens que vão se matar em 2005, 150 serão lésbicas e 906, gays. Você não se impressiona com esse número?? Eu leio, releio, e não consigo assimilar. Em um ano, NOVECENTOS E SEIS garotos vão preferir morrer a continuar sofrendo humilhação. CENTO E CINQUENTA garotas vão escolher desaparecer a ter de lutar pelo direito de amar quem elas quiserem. Mil e cinquenta e seis. Alguns devem ser até vestibulandos também. Serão mil e cinquenta e seis futuros profissionais a menos. Futuros nada. Quanto de talento não estamos perdendo, a cada ano? Quantos artistas, escritores, músicos, arquitetos, médicos, engenheiros, designers, advogados, professoras? A gente costuma dizer que a cada ano que vira o mundo parece enfrentar mais guerras, mais violência, mais tristeza... Será que parte do motivo não está nesse milhar de jovens que desaparecem? Quem sabe o que eles poderiam trazer de benefícios para a humanidade? 

Eu não me canso de buscar confirmação para estes números. E tudo parece confirmá-los. Em estudo lançado pelo departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp atestou que a principal causa de suicídio entre jovens se relaciona com frustrações no âmbito familiar e afetivo. Justamente onde a coisa pega para os E-jovens. Quando sua família te recrimina por algo que você faz, como usar drogas, é até simples largar e pronto (ok, não é simples, mas é possível). Quando o menino tá na fossa porque sua namoradinha o deixou, basta aparecer outra e temos um suicida a menos. Mas e quando sua família o recrimina não por algo que vc faz, mas por algo que você é? Quando um pai ou uma mãe diz "Se você continuar com essa viadagem, você pra mim morreu," e o jovem sabe que NÃO PODE MUDAR ISSO?? E quando ele está apaixonado pelo melhor amigo - e não há nada que ele possa fazer quanto a isso? Não pode conversar com os amigos, não pode conversar com os pais, com os irmãos... Não pode nem ao menos esquecer e partir pra outra, porque a 'outra' será invariavelmente 'outro', e o ciclo todo se repete. Enquanto ele ainda for novo e não tiver segurança de correr atrás de seus desejos, ele vai sofrer - e muito. Como diz o Júnior, na música, "E não é fácil viver assim".

É aí que a gente percebe como esses números podem sim ser reais. E machuca, né? Há alguns dias eu estva conversando com um E-jovem que tentou se matar, pra valer, mas não conseguiu. Ele me disse que hoje, olhando pra trás, ele percebe o quanto era ridícula aquela situação, o quanto o seu desespero era puramente a incapacidade dele chegar e conversar com as pessoas da sua vida. Mas que, na hora, você não percebe que há uma saída. Na sua cabeça, não existe nenhuma. Só a morte. Agora imaginem estes MIL E CINQUENTA E SEIS que vão morrer este ano, se tivessem a chance de pensar um pouco mais de tempo, de serem ajudados, de ver que de repente um diálogo bem aberto sobre tudo o que estão sentindo pode solucionar o problema. Gente, são mais de mil vidas!

Mais de mil famílias sofrendo a cada aniversário, a cada Natal, a cada lembrança... Fora os amigos... 

Ah, chega. Não tem mais o que escrever, sério mesmo. Vamos falar de coisas práticas. Tem solução pra acabar com essa matança?

Tem. Para o garoto, a garota, sair do armário é a melhor opção. Assumir para as pessoas da sua vida a sua orientação sexual e parar de sofrer em silêncio. Poder buscar ajuda, tanto em casa, quanto junto a seus amigos próximos, quanto com um psicólogo, sei lá. Mas FALE. 

Para os pais, professores e outros amigos e familiares, um palavra só: RESPEITO. Que tal buscar conhecer um pouco mais sobre o que é ser gay ou ser lésbica (ou até ser travesti ou transexual) em vez de recriminar o que desconhece, por puro susto? Se você é religioso, que tal procurar saber o que realmente a Bíblia diz sobre a homossexualidade antes de sair repetindo as besteiras pregadas por pastores e padres que mal leram as escrituras? 

Caso contrário, a próxima vez que você disser que prefere ter um filho morto a ter um filho gay, seu pedido pode se tornar realidade.

Deco Ribeiro
é Fundador do E-jovem

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Por que me matei

Gustavo

Uma pessoa pode procurar se matar por razões diversas, porém todas são negativas. Posso dizer que a minha depressão começou no ano 2000, quando eu comecei a fazer faculdade. Naquela época eu estava começando a fazer novos amigos, tanto na faculdade como também nos meios gays, por assim dizer. Foi naquele ano em que eu comecei a sair para boates gays, passei a me relacionar com eles com mais freqüência, pois passei a participar de um mundo diferente daquele que costumava viver. Naquele ano eu tinha 18 anos e me envolvi com um garoto de 16 que, por alguma razão imbecil, passou a telefonar para a minha casa e falar coisas para as minhas irmãs, várias histórias inventadas só para me prejudicar. E foi o que aconteceu. Minha família passou a vigiar de perto, me privou de certas liberdades que tinha, pois não se conformavam com o fato de eu ser gay. Mas todo o esforço que eles fizeram foi em vão, não virei heterossexual, passei a ficar mais em casa e não saia com mais ninguém. Lentamente a situação foi ficando insuportável. Tínhamos brigas todos os dias no início e assim continuou durante anos. Nem sempre as brigas era por eu ser homossexual, às vezes brigávamos por outras coisas. É que quando se perde o amor e a confiança familiar, você passa a odiá-los mais e briga por qualquer motivo. 

Assim, toda essa perturbação familiar acabou repercutindo em todos os aspectos na minha vida. Na faculdade eu acumulava cada vez mais matérias em dependência, mas não porque eu não me esforçava, mas porque a falta de concentração nas coisas é um dos sintomas da depressão. E isso foi me desanimando cada vez mais, pois sempre que estudava não conseguia grudar os olhos nos livros. Eu passei a achar que era um burro por natureza, que eu era um ser incompetente, que ia trabalhar nos piores empregos pro resto da vida. Em 2002 minha família entrou em acordo comigo: que nós iríamos a um psiquiatra juntos, para discutir as nossas diferenças. 

Pouco a pouco coisas estranhas foram acontecendo comigo. Todo dia quando eu saía da aula tinha fortes dores de cabeça. Por meses tinha diarréia e achava que estava doente quando, fisicamente, não tinha nada comigo. Também cheguei a ter momentos constantes de falta de ar, más noites de sono, impotência, ganho de apetite, queda na concentração, idéias pessimistas, desânimo, fortes dores no corpo, alta irritabilidade ou “nervos à flor da pele”, falta de prazer e falta de interesse em qualquer atividade social, além de chorar toda hora.
 No início de 2004 eu passei a tomar remédio anti-depressivo que visa barrar a queda de neuro-transmissores que é a causa da depressão. O problema é que eu devia estar no auge da minha doença, embora o meu relacionamento familiar tenha melhorado muito, havia muitos outros problemas entre nós e dentro de mim mesmo. 

Em junho constantemente faltava à aula para ficar na cama mais um pouco. Não tinha vontade de levantar dela. Às vezes eu saía de casa de manhã e ia ao cemitério só para passar o tempo, e voltava na hora do almoço como se eu tivesse ido pra faculdade. Mas foi quando começou a semana de provas na faculdade e tinha resolvido que não ia estudar pra prova nenhuma. No início a minha vontade era a de mandar tudo pelos ares, na verdade essa minha vontade estava dentro de mim há anos, mas naquele mês eu tinha percebido que devia dar um basta em toda aquela situação. Foi quando percebi que eu não tinha uma vida, eu estava apenas sobrevivendo às circunstâncias que o mundo impunha. E como uma pessoa que não tinha vida, também não tinha futuro. Eu não imaginava como poderia ser a minha vida dali pra frente, na verdade eu nem queria saber mais como poderia ser – eu já tinha me matado e não sabia.

Comecei então a planejar minha morte. Como poderia morrer sem sofrer, de forma rápida e menos dolorosa para a família e amigos? Esse era o tipo de questão que pensava o tempo todo. Até que descobri uma maneira que parecia ser eficiente, era a de tomar vários remédios junto com whisky. 

Felizmente ou infelizmente eu não morri, mas quando voltei para casa eu descobri que minha família estava desesperada me procurando por todos os cantos – por causas das cartas e e-mails que eu tinha deixado, contando tudo. Meu pai me falou que aquele dia tinha sido o pior dia da vida dele. Eu nunca disse isso pra ele, mas acho que foi a frase que ouvi de alguém que mais me deixou feliz naquele dia, porque até então o dia em que contei a ele que sou gay havia sido o pior dia até aquele. 

Conversei com meu pai, pedi desculpas pelo o que eles tinham passado naquele dia, mas ele virou com um sorriso e falou que quem tinha que pedir desculpas era ele, que aquele fato tinha feito ele questionar várias coisas que antes ele defendia e hoje não mais defende. Posso dizer que hoje está tudo bem entre nós: as brigas pararam, posso trazer amigos meus aqui que não há mais aquela paranóia antiga que eles tinham. Uma coisa é verdade: acho que foi muito mais penoso para mim e minha família eu não ter sido aceito do que o oposto, porque hoje minha família brinca comigo de “quando vou trazer meu namorado pra casa”, minha mãe está se tornando uma super amiga de um amigo meu e meu pai tinha adorado conhecer um outro amigo meu que é médico, visto que ele trabalha na mesma área e depois acabou me falando que eu tinha bons amigos. Antes se esses amigos ligassem aqui em casa era um interrogatório estilo “gestapo”. Hoje a coisa já é mais “traga ele aqui para conhecermos”.

A coisa mais desagradável que tive que ouvir era a de que eu tinha feito isso para chamar a atenção. Uma coisa é verdade: durante o período em que eu planejava, eu pensei que a minha família fosse acobertar toda a situação, por isso eu peguei e-mails de várias pessoas e espalhei um texto que explicava as razões pelas quais eu tinha resolvido que era melhor morrer. Mas não foi só pra aparecer. Eu realmente me entupi de remédios com álcool e corri o risco de entrar em coma e realmente morrer. Foi um acaso isso não ter acontecido. 

Gustavo
está vivo, tem 23 anos e mora em SP

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