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Editoriais
 

Mais Visibilidade = Mais Homofobia?
Alguma coisa está errada nesta conta. Tem que estar. Caso contrário, toda a nossa luta estaria seriamente equivocada. 

Deco Ribeiro
outubro de  2005

De um tempo pra cá, a visibilidade gay e lésbica estourou na mídia. São dezenas de seriados que abordam o tema nas TV a cabo, como Queer As Folk, Queer Eye for a Straight Guy, Friends, Everwood, The O.C., Simpsons, etc. Vários programas e novelas da TV aberta também tratam do assunto atualmente - TODAS as novelas das oito já têm praticamente garantido um personagem gay ou lésbica. Na atual, América, Bruno Gagliasso vem interpretando com sensibilidade um jovem gay enrustido que está se descobrindo gay e vai enfrentar a mãe pelo direito de amar quem ele quiser - no caso, um peão gostosão que já assumiu ser bissexual (para espanto do personagem do Bruno e nosso!). Mas isso não é tudo! Na novela das sete que acabou de terminar, tínhamos toda uma constelação de gays - desde o autor da trama, Miguel Falabella, até personagens centrais da trama, como a travesti Dona Roma e o afetadíssimo Samovar - que teve direito a final feliz e tudo, ao lado do "hetero" por quem ele foi apaixonado a novela inteira. Fora isso, abre-se cada vez mais espaço para discussão da homossexualidade em programas de variedade e jornalísticos - como Faustão, Fica Comigo, Beija Sapo - e nos próprios jornais e revistas - a Época é a revista que mais nos privilegia, seguida de perto pela mensal Superinteressante. Com toda essa exposição, era de se esperar que a população estivesse muito mais consciente a nosso respeito e já tivesse aprendido a nos respeitar, não é?

Só que as estatísticas negativas não param de crescer. Todos os dias aparece um caso de homossexual assassinado, com requintes de crueldade. São sempre várias facadas, vários tiros. No Amazonas, Adamor Guedes, um dos maiores militantes GLTTBs do país, que já tinha sido ameaçado de morte várias vezes, foi morto por supostos garotos de programa. Em Goiás, outro militante foi encontrado com dois tiros na boca, enquanto, no Rio, um terceiro ativista está desaparecido e teme-se que tenha sido vítima de grupos de pitboys homofóbicos da Baixada Fluminense. Em são Paulo, o Coordenador do E-Sampa foi espancado por dois skinheads próximo a uma boate gay (leia mais abaixo) e duas meninas foram parar na delegacia porque trocaram um selinho numa das cantinas da USP. Em Campinas, eu mesmo cheguei a levar um soco de um garçom (!!) por defender dois E-jovens que foram proibidos de se beijar no bar, na minha frente. Ainda na região, um outro E-jovem teve seu braço torcido e foi retirado de uma boate à força, por estar sentado no colo do seu namorado, e um professor foi atropelado "3 ou 4 vezes" por ex-alunos do colégio - por suspeitarem que ele era gay.  E isso tudo nos últimos 60 dias.

O que acontece? Eu já estou ouvindo dizerem por aí que isso tudo é culpa nossa, que a gente aparece demais e agride a moral "dos cidadãos de bem". Será que é isso? 

Claro que não. Assim como não existem MAIS homossexuais do que antigamente - a única diferença está no fato de que agora é que a sociedade está olhando MAIS para eles -, o mesmo acontece com os homofóbicos, aquele que odeiam os homossexuais. Antes, eles não precisavam mostrar que existiam. Afinal de contas, pouco se falava em gay, não é mesmo? Agora não, o assunto está em todos os lugares e as pessoas que nos odeiam são obrigadas a expor cada vez mais a sua posição. É o travesti da novela mostrando seu guarda roupa no Videoshow, é o gay viajando com seu namorado na novela das sete, é o Jornal Nacional mostrando a Parada Gay, o peão assumindo que é bi na novela das oito, Jean no Big Brother, Drag Queen indo no Jô... o Homofóbico acaba tendo muito mais oportunidades de se manifestar, de soltar um "Odeio esses viados!" O mesmo acontece nas ruas. Viados e sapas estão indo muito mais a bares, cinemas, restaurantes, boates, SEM ESCONDER QUE SÃO HOMOSSEXUAIS. E isso oferece muito mais oportunidades para o homofóbico de plantão exercitar sua ignorância. 

O que estamos vendo é um processo duplo: Quanto mais os gays ganham visibilidade, mais seus opositores - que SEMPRE existiram - também são arrastados para a luz. E isso é ruim? Nem um pouco. Porque antes esses mesmos assassinatos e agressões aconteciam da mesma forma - só que ninguém via, ninguém ouvia falar. Homossexuais morriam todos os dias e ficava por isso mesmo. Agora, ta na mídia, todos os dias. Aumentaram as agressões a homossexuais?? Não, aumentou a nossa visibilidade.

E isso é bom. Só mostra agora, pra todo mundo, que não estamos aqui gritando pelos nossos direitos à toa. E continuarmos a exigir respeito e providências do Poder Público.

Deco Ribeiro
é fundador do site E-jovem.com




Espancado por skinheads: o preço de ser diferente?

Todos os dias vejo nas páginas dos jornais, nos noticiários da tv e rádio, nas revistas semanais, nas retrospectivas anuais e muitas vezes ao vivo, milhares de atos de violência. Aqui de onde estou, em um prédio na avenida Paulista, a mais movimentada de São Paulo, vejo constantemente atos de violência, mulheres e homens sendo roubados, esposas pulando de prédios para fugir das agressões do marido, pessoas discutindo por um simples esbarrão... Mas nunca achei o ato de violência mais real e doloroso teria eu como vítima. É,  senti na minha própria pele a dor de uma agressão e o pior de tudo: agredido por ser homossexual, por estar indo para uma boate GLS encontrar os amigos.

Será que para as pessoas ser homossexual é um crime tão grave assim que se deva pagar com porradas, pontapés, socos, costelas fraturas e um nariz quebrado em quatro lugares? Mas ainda não sei dizer o que doeu mais, ter apanhado covardemente, ou ouvir eles me dizendo: “Nega que você é gay e nós paramos de te bater”. Não neguei minha homossexualidade e apanhei ainda mais. Essa frase foi o que doeu mais em mim, saber que estava sendo agredido simplesmente pelo fato de ser diferente deles, por ser homossexual.

Hoje, depois que tudo isso aconteceu comigo, depois de sentir na própria pele a dor do preconceito, a violência que para mim até então só existia nos jornais e revistas e que só era vista do alto desse prédio, passou a fazer parte de mim. Deixou marcas em meu corpo que irão sumir, mas deixou uma marca eterna em meu peito, em meu coração, marca essa que me deu mais um motivo para lutar contra essa violência e o preconceito doentio de algumas pessoas.

Chega de ficar sentado no sofá da minha casa, ou ficar na janela desse prédio assistindo de camarote vidas sendo tiradas ou mudadas para sempre pela Homofobia. Lutarei até minha morte, até derramar a última gota de sangue de meu corpo, mas deixarei para as crianças de hoje e para as que ainda estão para nascer, um mundo novo, se não totalmente sem preconceito, ao menos, um pouco mais consciente. Não quero mais saber que um jovem de 13-14 anos se suicidou por medo do preconceito, por medo de assumir sua homossexualidade. Lutarei sim, sem medir forças, nem que para isso tenha que ganhar mais algumas marcas em meu corpo, mas não permitirei que nenhum outro E-jovem, passe pelo o que passei. 

Sei que é impossível impedir isso nos quatro cantos do mundo, mas sei que juntos podemos lutar para que essa situação seja mudada e que todos, mas todos sem exceção, tenham orgulho de ser quem realmente são. Sou Wesley Silva de Oliveira, o Well, 18 anos, brasileiro, homossexual assumido e feliz por ser quem sou.

Wellé Coordenador do E-Sampa, o Grupo E-jovem em São Paulo

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